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Uma pequena história de amor

Uma pequena história de amor



Joaquim tinha já o andar trôpego, mas a mente continuava a ser brilhante. Em dia de aniversário da esposa queria dar-lhe algo especial para marcar aquela importante data na vida de ambos; há uns dias que andava a pensar em fazer algo especial, e claro flores, todos sabem que caem sempre bem. Tinha que passar pela sua florista habitual, sabia que flores iriam agradar-lhe. Nessa manhã de inverno, apesar do mau tempo sentia-se particularmente bem-disposto, com vontade de partilhar com o mundo a alegria que sentia. Parou na montra para apreciar as novidades florais, sobretudo para ver se no seu interior não estava de serviço a empregada da tarde que detestava, por quem não nutria particular afeição. Após se ter certificado que o caminho estava livre, e que era a dona da loja que estava a atender os clientes, entrou. Já segundos antes a florista logo que o vira a espreitar na montra, certificou-se que a encomenda que tinha no livro há mais de uma semana se encontrava feita, sorrindo-lhe dando-lhe as boas vindas. Depois dos cumprimentos habituais, do tempo que fazia e das doenças que o atingiam lá disse ao que vinha, ver se a sua encomenda estaria pronta.

- Claro que sim, acha que me ia esquecer senhor?

- Sei que a senhora tem sempre muito trabalho, muito em que pensar, e, podia dar-se o caso, nada mais natural…

- Veja se gosta? Disse apontando para um ramo que tinha reservado em cima duma pequena mesa. - Sempre arranjou as orquídeas amarelas que pedi.

- O senhor merece e a sua senhora também; sabe gosto muito dela.

- Faz hoje anos… pedi-lhe para me fazer um ramo bonito..., não sei se será o último que lhe vou oferecer. Está, está bonito sim senhor, mas olhe, não o vou levar agora, voltarei por volta das onze… viu só buscar pão não quero que ela o veja já, quero fazer-lhe uma surpresa, quero que pense que me esqueci, sei que vai ficar desolada quando vir que vim à rua e não lhe levei nada e que me esqueci dela.

- Está prontinho, venha quando quiser.

Entretanto tinha acabado de entrar outro cliente que aguardava impacientemente, não pode deixar de ouvir parte do diálogo, embora o repetido olhar para o relógio fizera com que a florista abreviasse a conversa com o ancião. Era um cliente novo e apesar da pressa não pode deixar de ficar deliciado com a forma apaixonada com que viu aquele homem octogenário falar da surpresa, repetida ano após ano ao amor da sua vida.

- O senhor Joaquim não se importa, que eu vá atendendo este senhor?

- Esteja à vontade, estes jovens d’hoje andam sempre com pressa.


Este sorriu para o homem que poderia ser perfeitamente seu avô. Do lado de trás do balcão a florista começou a escolher as flores com os olhos, para dar forma a um bouquet primaveril que lhe havia sido solicitado pelo jovem, enquanto isso ia dizendo tentando entretê-los:

- Pois muito bem, então a Dona Esperança hoje está de parabéns…

- Sim dona Clarinha, ela faz hoje oitenta anos, sabe a dona Clarinha é uma jovem ainda, oitenta anos é uma vida. Estamos casados há cinquenta e dois anos, pró mês que vem, e sabe a dona Clarinha, somos muito felizes… sempre fomos; ainda me lembro o dia em que a conheci. Sabe na juventude a gente faz muitas asneiras, mas eu não aquilo é o que se costuma dizer, foi amor à primeira vista. Mas, sabe a parte das asneiras, meteu-se-me na cabeça com vinte e três anos que havia de ir para o Brasil, a minha mãe que Deus tem bem se remoeu. Nessa altura da conversa já o senhor Joaquim falava directamente para o cliente que acabara de entrar, entrando de alguma forma forçado naquela conversa, uma vez que este continuava a falar, apesar da florista ter abandonado o balcão há um ou dois minutos atrás, saindo discretamente por uma porta lateral, tendo provavelmente ido ao armazém procurar alguma flor especifica que não tinha ali à mão. O jovem viu-se na contingência de repetir como a formular-lhe a pergunta que Joaquim esperava, timidamente saiu-lhe um “ – Foi então para o Brasil?”

- Para o Brasil, (repetiu satisfeito, acrescentando pouco depois) Mas, não aguentei por lá muito tempo saudades de cá… mas, estive lá uns três anos, aquilo é que pode dizer-se foi um amor à primeira vista. Clara regressara entretanto ainda a tempo de valer ao jovem, que não estaria habituado a estas franquezas, leia-se confidências dos outros clientes, que num ápice contam a vida toda, e nem precisam de muito tempo para isso.

- Pois como estava a dizer dona Clarinha, nessa altura morávamos em Lordelo do Ouro, o meu pai fornecia pregos e cavilhas para os estaleiros do rio Douro; mas apanhou uma corrente dar e foi-se coitado com uma pneumonia dupla e, o negócio perdeu-se. A minha mãe coitada não percebia nada e nós eramos todos demasiado novos. Tinha uma tia no Brasil escrevi-lhe e ela mandou-me ir ter com ela ao Rio de Janeiro, meti-me no comboio para Lisboa para apanhar o barco. Antigamente ia-se de barco. Estava eu na escada e reparei quem ia à minha frente, a que haveria de ser minha mulher… quando ela se voltou para trás e lhe vi aqueles olhos azuis, até sentia as pernas a tremerem-me, que mulher! Era uma barco Argentino o “Salti” jamais me posso esquecer, nunca mais a deixei. Vim a saber, que ia para casa de familiares, não me aproximei logo logo dela, com medo de a perder, eu fazia por encontrar-me com ela no refeitório, a viagem era longa e acabamos por começar a falar, à noite ouvíamos musica, tangos e pasodobles que na altura estavam na moda, foi aí que comecei a sonhar com ela quando um dia perdi a vergonha e a convidei para dançar, nunca mais a larguei. Chegamos ao Rio de Janeiro e foi cada um para seu lado, eu tinha anotado a morada para onde ela ia, três dias depois foi lá ter com ela e o nosso destino estava traçado. Começamos a namorar e pouco tempo depois juntamos os trapinhos e passamos a viver juntos… foi o grande amor e único da minha vida.

A Florista e o jovem Ernesto haviam ficado como que parados no tempo ouvindo aquela bela história de amor, ela com o ramo do jovem por acabar e ele de repente perdera toda a pressa, não tinha a menor vontade de sair daquela loja fantástica e perder o fim da história que ainda agora estava a começar.

2 comentários:

Maria João disse...


Enquanto lia este teu texto, dei comigo a pensar no quanto perdemos, tantas vezes, por andarmos demasiado apressados e por não termos tempo para ouvir os outros. São histórias, é certo, mas tão repletas de vida por dentro, que nos contagiam emocionalmente e nos fazem pensar.

Um abraço

Gina Cunha disse...

Uma linda História de amor amizade tudo é lindo. Parabéns António abraço.