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Acabaram-se os uis e os ais

É possível a mudança
uma brisa, tudo se irá desvanecer
dizem que falta querer
Para que chegue a esperança


Apesar de coado, o sol ainda é teu
Esquece as repetidas ameaças
Acabaram-se as mordaças
Há tempo, digo-te eu

Há tempo e terás tempo…
Muito, muito pouco tempo,
Hoje, quiçá amanha

Depois será tarde demais
Acabou-se o tempo, o teu tempo
Acabaram-se os uis e os ais.

António Gallobar
2015-10-03

O teu amplexo


Não encontro, não vejo,
arrependido me rendo,
me rendo cordato,
perdido em desejo.

Sim,
foi teu nome que deixei gravado
na areia molhada da praia,
um dia após outro,
sem esmorecer
com pena de mim
com pena de ti
com pena do que afinal perdi.

Sim,
talvez desesperado,
louco e tonto.
apaixonado enfim.
E tu minha rainha
ainda me chamas louco
e tonto...
Mas eu não esqueço...


Não esqueço,
os longos passeios na praia
nem tua mão na minha.

talvez,
eu tenha apenas
saudades...
do ombro amigo,
do amplexo
que foi meu certa vez,
talvez, sim talvez.


Antonio Gallobar
Olhando o "Futuro" donairoso

Olhar perdido no teu mar imenso
intenso e profundo
descanso conformado,
vislumbrando o futuro,
meio perdido,
semi encontrado
encantado com a vida
que vejo e prevejo.
Fecho os olhos e
mergulho no escuro.

Sem olhar para trás
eu sei...
és ainda mais bela
do que imaginei

"Ignorando o rio" e o grande Fernando Pessoa


Hoje reparto convosco este pensamento inspirador do grande Fernando Pessoa, serviu de mote para o ensaio poético que chamei "Ignorando o rio, espero que gostem. Primeiro o mote depois o poema

«Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.»  

Fernando Pessoa






Ignorando o rio

Grito calado, que não chega
revolta latente que não sai
mudo na boca que se fecha
se deixa morrer, sem um ai

E porque sei que a vida é efémera
Adormeço acorrentado
Ignorando o rio

Jamais chegarei à outra margem
algo me agita, se me diz o que fazer.
Cobarde me quedo nessa imagem
Qu'o espelho teima em trazer

E porque sabes bem que a vida é breve
Adormeces acorrentado
Ignorando o rio

Miragem? Acreditas na miragem…
de lutar contracorrente no inverno
se achas que aqui irão facilitar-te a vida
Acorda barco triste, nada é eterno

E porque todos sabem que a vida será breve
Adormecem acorrentados e tristes
lambendo as feridas,  teimando em ignorar o rio

António Gallobar

Recordações


Recordações da infância




A brisa corre assobiando por entre os pinheiros. Surgem pedras no caminho adornadas com líquenes e musgos onde a medo de forma esquiva se mostra a lagartixa. Apanha os primeiros raios de sol, e, se esconde ao mais leve movimento de quem sempre curioso a tenta apanhar ou simplesmente a observa,numa bela paleta de cores brilhantes, fazendo parar no tempo que leva à infância; aos cheiros das lareiras que ardem; nos dias cinzentos de nevoeiro cerrado que desce lentamente da montanha e cobre num ai todo o vale de forma rápida e quase inexplicável, assim permanecendo dias a fio. Nevoeiro cerrado, que fica teimosamente, trazendo com ele o medo que ficou perdido lá atrás noutro tempo, noutro país quiçá. 
 
Acordar no inverno e ver tudo branquinho, poder deslizar monte a baixo em cima de uma crocha de pinheiro, até ao ribeiro congelado. Tempos há muito perdidos na ainda curta memória como o canto dos carros de bois, percorrendo caminhos estreitos bem marcados nos chão, riscos paralelos deixados ao vento pelos montes onde a erva jamais crescerá. Carregados de mato ou lenha para a padaria da vila de onde chegavam aromas matinais que abririam apetites vorazes de uma juventude insaciável. 

Ainda os consigo ouvir, pensava a rapariga,  procurando no fundo da sua memória, lembrando esse som que se prolongava languidamente como que um chorrilho ou um lamento arrastado, madeira contra madeira, ao passo do caminhar lento dos animais, madeira mal lubrificada, o azeite caro de mais para se desperdiçar em rodas de carros de bois, e assim assobiavam uma toada repetida até ao fim do mundo, apenas de vez em quando pontuado pela voz do moço que descalço caminhava na sua frente e que, só em dias de festa calçava solipas e soltava de onde a onde um berro, um “Chega pra láaaa…” cantado, acompanhado duma vergastada no jugo, para assustar;
para sacudir a mosca, como costumam dizer na terra. E desta feita, assim conseguir levar os animais para onde queria, seguindo tranquilamente o seu caminho, completamente alheio àquela chiadeira infernal que os rodas do carro de bois produziam, ladeira a baixo, ladeira a cima até desaparecer, para lá da curva do caminho feito de terra batida ou de saibro, onde tinha acabado de deixar o banco de nevoeiro bem para trás.



Texto retirado do livro "O último segredo de Hitler"

TESOUROS DO MUNDO




A missão que Alain Dudley tinha pela frente era extremamente exigente; exigente e espinhosa. Era precisamente nesse ponto que confluíam todas as suas dúvidas e receios, sem saber se iria ter força para conseguir estar à altura da responsabilidade que colocavam agora sobre os seus ombros.“ Devolver ao mundo os seus tesouros.”Dito desta forma… poderia ser entendido como redutor da realidade; sobretudo nesta altura em que se sentia cego pela ambição, para não falar da confiança ora depositada na sua pessoa que era tremenda; que era nada mais nada menos que dar corpo a um sonho que muitos diriam ser impossível de concretizar… liderar uma equipa multidisciplinar que iria dar corpo e criar o museu dos museus: o grande Museu Internacional de Arte Humana de Nova Iorque. Há anos que sonhava com este projecto, praticamente desde os seus tempos de estudante. Recorda esse dia, como sendo o dia em que a palavra "Arte" passou a fazer verdadeiramente sentido, até na sua vida, especializando-se até se tornar ele próprio numa verdadeira enciclopédia viva, apesar da sua juventude que incomodava sobremaneira os mais velhos.As palavras do orador surgiram poderosas no meio do palco, não deixando ninguém indiferente face à sua argumentação. Vinham da boca d’um homem que apaixonadamente amava as artes e ciências humanas. Imbuído nesse objectivo, questionava a plateia, que, em pequenos acenos com a cabeça lhe transmitiam energias positivas para que continuasse a desenvolver o raciocínio que expunha à plateia douta e egrégia. Questionava a legalidade duvidosa dos grandes Museus Europeus sobre a forma como detinham os tesouros da humanidade tratando-os como se fossem seus, reflectido sobre a necessidade de conseguir um dia devolve-los a todos aos países onde foram criados, para não dizer "roubados". Cáustico deu alguns exemplos, com particular ênfase ao Louvre detendo mais de trezentas mil obras de arte, mostrando ao público apenas uma pequena parte do vasto espólio; deu como exemplo as verdadeiras pilhagens que exploradores Franceses fizeram no último século em terras Egípcias.




- Meus senhores a maior parte de vós que estais nessa plateia, sofre de um eterno equívoco, uma espécie de metamerismo congénito; aqui dentro dirão que o meu casaco é castanho, mas se forem lá para fora, se forem lá fora muitos dirão que afinal ele é verde; afinal em que ficamos, quem terá razão? Meus amigos França tem mais peças guardadas nos seus museus que o somatório de todas as peças existentes no Cairo e arredores. Por isso questiono, acham essa situação aceitável? Muitos de vós nem terão pensado em tal coisa.
Olhou para a plateia que se mexia incomodada tentando perceber onde aquele homem queria chegar com aquela conversa, comportava-se como uma esponja, absorvendo cada palavra que escutara. O orador sentiu que os tinha na mão definitivamente, o silencio era sepulcral depois do ligeiro burburinho, por isso continuou:
- Outros exemplos… poderia dar-vos, que ilustrassem com clareza o caminho que vai da Ignorância pura e dura à néscia cognitiva.
O orador sentiu desta vez, por instantes, uma certa agitação como se uma brisa tivesse entrado na sala, provavelmente não o entenderam o que acabou de dizer; porém, sem se limitar prosseguiu mudando de registo:



- Poderei falar-vos de Londres se não vos antepuserdes; a bela cidade de Londres por exemplo, tem mais peças da Grécia antiga que Atenas…, lá apenas deixaram ficar as colunas… por serem demasiado compridas para que as pudessem transportar sem se partirem…se isso é aceitável então teremos muito que conversar. Meus senhores e minhas senhoras na minha humilde opinião, aceitável é um dia conseguirem que se devolva “o seu a seu dono” devolvam-se os originais e exponham-se as cópias em seu lugar. É uma fraude ir-se a determinados locais para se conhecer um pouco mais de história se fique com a sensação de que foi viagem em vão, valia mais terem ido logo, aos locais que referenciei, seria porventura mais proveitoso, o que não deixa de ser uma estranha perversão, não acham?
A plateia escutou estarrecida esta interrogação; decididamente constatava-se que não tinham pensado em tal coisa. Escutaram aquele homem que preferira palavras quase irracionais que apelavam ao instinto que existe no fundo de cada ser humano, a plateia continuou calada quase amorfa até que um jovem levantou-se e bateu as primeiras palmas que fizeram eco, perante uma assistência apática como que adormecida, o jovem não esmoreceu contaminando-a progressivamente toda a sala que segundos encontrava-se de pé tributando-lhe numa enorme ovação que lhe deu motivação para continuar com mais afinco na sua dissertação, agora já com novos exemplos para os levar para onde queria, percorrendo o triunvirato que vai do fixismo passando por uma espécie de transformismo para acabar em evolucionismo, prosseguindo:
- A esmagadora maioria dos museus do mundo ainda não conseguiram adaptar-se a esta nova realidade , a esta evolução natural que é estar ao serviço das pessoas do presente e das suas causas e deixarem de ser um repositório de coisas mortas










Texto inédito do novo romance "O coleccionador de segredos".


21 de Março
Dia Mundial da Poesia

Foi criado na XXX Conferência Geral da UNESCO em 16 de Novembro de 1999, com o propósito de promover a leitura, escrita, publicação e ensino da poesia através do mundo..

Para assinalar esta data deixo-vos com um poema meu, talvez o que mais goste.

Espírito Livre

Sou um espírito livre que voa sem freio
que atravessa horizontes, terra e mar
sou o vento que cruza o vale, a montanha
brisa suave que te embala e faz sonhar

Aquele que te agita e diz o não queres ouvir,
te atormenta quando teimas a voltar
a fazer o que não deves certamente
quando a razão que sabes, prometes ignorar

Aí volto a ser o pássaro livre, que sempre fui
Que diz tudo o que pensa ao vento que passa
E num salto se lança destemido abrindo as asas
recusa olhar para trás, e não te ver na desgraça

E hei de voltar a ser novamente a voz que ecoa
te ajudará uma vez mais, nesta tua vida irrequieta
ave que voa sem medo sobre os teus segredos
sem reflectir os vê com olhos e sonhos de poeta.



Mais um excelente convite a que tive o prazer de dizer "sim".

Uma obra fantástica para descobrir com calma.

Beijos de Bicos

Mais uma bela aventura colectiva, um livro fantástico que vai fazer história e tal como todas as belas histórias de amor, existe encanto e muito amor (para todos os gostos).

"Beijos de Bicos"

Uma colectânea com 68 historias de amor de 68 autores, abrilhantadas por 68 fotografias de Helena Lagartinho, tudo sob chancela da Editora Pastelaria Studios que nos vai brindando com estes desafios.

Tal como aconteceu com os Ocultos Buracos, deixo-vos com a minha história de amor  "Acordei contigo em Paris" espero que gostem, tal como eu gostei de a escrever (alguém assim disse). 

Devo confessar que desta vez fiz batota por falta de tempo, em face do desafio deitei mão aos meus escritos pegando num trecho do romance que ando a escrever; alterei nomes e um ou outro rearranjo para tudo passar a fazer sentido num conto com dez páginas. Levantando um pouco o véu, quem sabe a curto prazo os surpreendo a todos com um novo romance, onde poderão encontrar algures esse texto, para já e sem ser definitivo digo apenas que poderá vir a chamar-se  "O coleccionador de segredos".

Para lerem na integra o meu conto, basta clicar aqui.

Boas leituras!

António Gallobar 
Travessia no deserto
 
Em silêncio observo sem receio
Aqueles a quem chamei amigos
Agindo qual desconhecidos
Teimando em mudar de passeio
 
Porém, havemos de voltar a sorrir
Precisamos de tempo, nada mais
Vós que fugis descansai
Nada vos hei de pedir
 
Depois deste tempo, outro há de vir
esperarei por vós que vos perdesteis 
sentado no meu canto a sorrir!
 
Num tempo de má memória
farei a travessia do deserto 
e qual fénix, reescreverei  a vossa história
 
António Gallobar

Vagamente



VAGAMENTE




Chegarás cálida, quase de mansinho
Espelhando almas que sofrem
num tempo sem  tempo
cumprindo o meu, o teu destino

De mim, delas, rápido esquecerás.
Nada mais seremos que poeira
Almas perdidas no esquecimento
deste nosso tempo

E tu continuarás a ser princesa
Bela, porém acorrentada,
onde serás vagamente lua
eternamente enamorada

 E quando pela noite,
me vieres beijar
hei de ficar feliz
Sem que o queira mostrar.




António Gallobar

Uma pequena história de amor

Uma pequena história de amor



Joaquim tinha já o andar trôpego, mas a mente continuava a ser brilhante. Em dia de aniversário da esposa queria dar-lhe algo especial para marcar aquela importante data na vida de ambos; há uns dias que andava a pensar em fazer algo especial, e claro flores, todos sabem que caem sempre bem. Tinha que passar pela sua florista habitual, sabia que flores iriam agradar-lhe. Nessa manhã de inverno, apesar do mau tempo sentia-se particularmente bem-disposto, com vontade de partilhar com o mundo a alegria que sentia. Parou na montra para apreciar as novidades florais, sobretudo para ver se no seu interior não estava de serviço a empregada da tarde que detestava, por quem não nutria particular afeição. Após se ter certificado que o caminho estava livre, e que era a dona da loja que estava a atender os clientes, entrou. Já segundos antes a florista logo que o vira a espreitar na montra, certificou-se que a encomenda que tinha no livro há mais de uma semana se encontrava feita, sorrindo-lhe dando-lhe as boas vindas. Depois dos cumprimentos habituais, do tempo que fazia e das doenças que o atingiam lá disse ao que vinha, ver se a sua encomenda estaria pronta.

- Claro que sim, acha que me ia esquecer senhor?

- Sei que a senhora tem sempre muito trabalho, muito em que pensar, e, podia dar-se o caso, nada mais natural…

- Veja se gosta? Disse apontando para um ramo que tinha reservado em cima duma pequena mesa. - Sempre arranjou as orquídeas amarelas que pedi.

- O senhor merece e a sua senhora também; sabe gosto muito dela.

- Faz hoje anos… pedi-lhe para me fazer um ramo bonito..., não sei se será o último que lhe vou oferecer. Está, está bonito sim senhor, mas olhe, não o vou levar agora, voltarei por volta das onze… viu só buscar pão não quero que ela o veja já, quero fazer-lhe uma surpresa, quero que pense que me esqueci, sei que vai ficar desolada quando vir que vim à rua e não lhe levei nada e que me esqueci dela.

- Está prontinho, venha quando quiser.

Entretanto tinha acabado de entrar outro cliente que aguardava impacientemente, não pode deixar de ouvir parte do diálogo, embora o repetido olhar para o relógio fizera com que a florista abreviasse a conversa com o ancião. Era um cliente novo e apesar da pressa não pode deixar de ficar deliciado com a forma apaixonada com que viu aquele homem octogenário falar da surpresa, repetida ano após ano ao amor da sua vida.

- O senhor Joaquim não se importa, que eu vá atendendo este senhor?

- Esteja à vontade, estes jovens d’hoje andam sempre com pressa.


Deixem-me
 

Quero ficar em paz,
comigo.
Quero ficar quieto e calado.
Não quero falar com ninguém.
Não vos reconheço,
não reconheço este povo
a quem dizem que pertenço,
imberbe,
vencido e sem vontade própria
Que se deixou comprar
Por um misero pedaço de pão.


Hei-de sobreviver à tempestade
Mesmo só e sem vocês
Pobres pedintes, vencidos pelas dificuldades
Esquecidos de como se levanta a cabeça
E se luta…
Se conquista o direito de ser
Cidadão de corpo inteiro.


Basta de hipocrisia
de lamentos
tenho e tendes o que mereceis
Hoje acendi um vela por vós
que, tal como eu vos finasteis.





XLS - A caçada



A caçada




...Depois de satisfeita a condição básica, que era ter a sua própria montada, condição primeira para poder acompanhar os outros homens da aldeia nas caçadas. Depois de uma lição rápida, precisava adquirir algum treino, para se ambientar ao cavalo e se possível para os acompanhar já na próxima saída que iria acontecer dentro em breve. Reuniam um pequeno grupo que partia à aventura embrenhando-se na serrania, longe do conforto e da segurança da vida comunitária que tinham; normalmente faziam-no por dois ou três dias, chegando a deambular pela serra mais de cem quilómetros como se descrevessem uma enorme circunferência cumprindo os trezentos e sessenta graus, montando armadilhas em sítios já pré-determinados. Nem sempre o azar lhes batia à porta, por vezes tinham sorte, quando faziam a ronda e encontravam lá algum veado ou um ou outro javali, quando isso acontecia era uma festa, pois raramente os conseguiam observar, mesmo ao longe. Os homens da azinhaga haviam-se tornado caçadores desajeitados mas mesmo assim caçadores, lembrando a pré história, tinham algumas armas de fogo, mas a evidente escassez de munições, fazia com que só as utilizassem em ultimo caso, preparados para a eventualidade de poderem vir a serem atacados por desconhecidos ou então por alguma alcateia esfomeada, que no caso de aparecer virariam presas num ápice em vez de predadores exímios; de resto utilizavam bastões de madeira e cordas que eles mesmos começaram a fabricar com plantas locais.

Chegou a hora da partida, Artur imitando os restantes, pegou nas suas coisas mas sem que primeiro se ir despedir da mulher e dos filhos, que ficaram a choramingar, de forma mais sentida o filho João, esse também queria ir. O pai prometeu-lhe baixinho que qualquer dia o levaria também. Perante a promessa sorriu com a vitória alcançada, vendo a lágrima acastanhada seca pela manga da camisola rota, que corria de forma abundante pelo rosto sujo do filho. Ficou a pensar naquele rosto que ainda meses antes frequentava o melhor colégio de Coimbra e agora sujo de pó de andar a brincar com os outros miúdos suado e sujo, quem diria que era a mesma criança, quando antigamente ficava horas sentado em frente de um computador, agora corre livremente atrás dos cavalos. Perante estes pensamentos, sentiu-se confuso com o que seria melhor para o seu filho, o que o faria mais feliz, se viver enclausurado pela “etiqueta” ou andar livremente pelos montes a baixo atrás de cabras.

Pegou nos binóculos que tinha trazido consigo e numa navalha, que utilizava desde o tempo de escuteiro quando ia acampar, ou então um pouco mais tarde quando ia pescar com os amigos. Tinha-os guardado numa bolsa de cabedal, ciosamente escondidos na sela do cavalo, chapéu e uma corda enrolada ao ombro, e uma pequena manta atravessada nas costas do cavalo, fazia sentir-se um autêntico “Cowboy”, lá foi todo contente na cauda do pequeno grupo, observando.

Como que obedecendo, a um ritual o grupo seguia em silêncio em direcção à serra, afim de inspeccionarem o terreno e claro as armadilhas previamente montadas. Como que mecanizado o seu irmão Francisco levantou a mão e todos automaticamente pararam; pressentiu algo, todo o grupo parou, escutando. Em silêncio absoluto saltou do cavalo, agachou-se junto duns penedos existentes no local. Repentinamente desatou numa correria sem freio. Um ou dois minutos depois, voltou desconsolado dizendo era um coelho. 

-  Na volta havemos de o apanhar, desgraçado estava a rir-se de mim, com as orelhas arrebitadas no ar. Vamos embora!