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Paris perdera definitivamente o encanto.


Ide-vos os dois embora e não volteis a atormentar-me...

 
 
pensou referindo-se à voz de comando do seu sexto sentido, à sua voz e ao que o Major das SS acabava de lhe dizer, após se afastar dele emproado. As suas palavras deixaram-no sem fala. Viu-o partir, tão rápido como chegara. Francisco deixou-se ficar encostado às placas do transito exangue, Quieto, muito quieto a digerir o que ouviu, a pensar sobretudo na vida; na sua triste vida. Assim ficou quedo, quase sem respirar, tentando perceber o sentido da sua vida e compreender. Compreender quem iria entender aquilo... qual o verdadeiro o alcance do que ouvira momentos antes; como decifrar todo aquele enigma em que se via envolvido. "Não pode ser...". Seria louco? Deixar-se envolver assim sem mais nem menos naquela maldita guerra nojenta. "Acha que o Cônsul Sousa Mendes lhes salvará a Pele? "Mesmo o senhor só sairá daqui quando, e eu o permitir...
Teria que agir com normalidade, esconder o denosto a humilhação de ter que colaborar com aquela gente. Pegou na cigarreira e preparou um cigarro, enrolando vezes sem conta com a ponta dos dedos, lentamente levou o cigarro à boca e lambeu a ponta do papel com a língua, e ficou a olhar para ele sem o acender, batendo com ele levemente na caixa metálica cromada, para apertar o tabaco. Pequenas pancadinhas enquanto ia pensando na sua vida e nas vidas que passaram a estar a seu encargo. Enorme fardo lhe fora colocado nas costas. Quem lhe mandou ficar ali em Paris, “ agora aguenta e resistes ou...”  Respirou fundo e acendeu-o por fim,


enquanto ia pensando nos milhares que iriam morrer, se não conseguisse chegar à fala com o tal Sousa Mendes; deixou-se ficar ali encostado pensando na vida, expelindo a fumarola que fazia cócegas na garganta, eram os nervos. Deixou-se ficar ali quieto, olhando o corridinho que passava à sua volta, ninguém imaginaria pelo que ele estava a ali a passar, continuou ali por longo tempo, um cigarro depois outro e mais outro, olhando para o movimento das ruas que fervilhavam, a noite caía. Todos viram, mas ninguém viu… tentou abstrair-se, já não tinha pernas que o levassem mais além. Precisava recuperar o ar, colocar na cara um ar mais leve para não atrair ainda mais a atenção dos que passavam... jamais colaboraria com aqueles cães de Adolfo Hitler. Jamais! Disse jurando a si mesmo. Haveria de colocar no rosto sobretudo quando chegasse a casa, tentaria ignorar o sucedido, para não ter que contar a ninguém sobre o que ali se passara, pensando que a sua vida realmente daria um grande filme. Paris perdera definitivamente o encanto por aqueles dias.
 texto de romance inédito
António Gallobar

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