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Recordações


Recordações da infância




A brisa corre assobiando por entre os pinheiros. Surgem pedras no caminho adornadas com líquenes e musgos onde a medo de forma esquiva se mostra a lagartixa. Apanha os primeiros raios de sol, e, se esconde ao mais leve movimento de quem sempre curioso a tenta apanhar ou simplesmente a observa,numa bela paleta de cores brilhantes, fazendo parar no tempo que leva à infância; aos cheiros das lareiras que ardem; nos dias cinzentos de nevoeiro cerrado que desce lentamente da montanha e cobre num ai todo o vale de forma rápida e quase inexplicável, assim permanecendo dias a fio. Nevoeiro cerrado, que fica teimosamente, trazendo com ele o medo que ficou perdido lá atrás noutro tempo, noutro país quiçá. 
 
Acordar no inverno e ver tudo branquinho, poder deslizar monte a baixo em cima de uma crocha de pinheiro, até ao ribeiro congelado. Tempos há muito perdidos na ainda curta memória como o canto dos carros de bois, percorrendo caminhos estreitos bem marcados nos chão, riscos paralelos deixados ao vento pelos montes onde a erva jamais crescerá. Carregados de mato ou lenha para a padaria da vila de onde chegavam aromas matinais que abririam apetites vorazes de uma juventude insaciável. 

Ainda os consigo ouvir, pensava a rapariga,  procurando no fundo da sua memória, lembrando esse som que se prolongava languidamente como que um chorrilho ou um lamento arrastado, madeira contra madeira, ao passo do caminhar lento dos animais, madeira mal lubrificada, o azeite caro de mais para se desperdiçar em rodas de carros de bois, e assim assobiavam uma toada repetida até ao fim do mundo, apenas de vez em quando pontuado pela voz do moço que descalço caminhava na sua frente e que, só em dias de festa calçava solipas e soltava de onde a onde um berro, um “Chega pra láaaa…” cantado, acompanhado duma vergastada no jugo, para assustar;
para sacudir a mosca, como costumam dizer na terra. E desta feita, assim conseguir levar os animais para onde queria, seguindo tranquilamente o seu caminho, completamente alheio àquela chiadeira infernal que os rodas do carro de bois produziam, ladeira a baixo, ladeira a cima até desaparecer, para lá da curva do caminho feito de terra batida ou de saibro, onde tinha acabado de deixar o banco de nevoeiro bem para trás.



Texto retirado do livro "O último segredo de Hitler"

3 comentários:

Madalena Amaral disse...

Bonitas imagens, excepto o da lagartixa, que me faz medo (risos)A lembrança do carro de bois, com aquela barulheira e um arrastar que parecia não ter fim,levou-me a remotas lembranças da minha infância.

António Gallobar - Ensaios Poéticos disse...

Gosto destes sons que nos fazem lembrar, outros tempos esquecidos na poalha do tempo, à infância quase perdida. Obrigada amiga Madalena Amaral pelo seu comentário, é fantástico ter retorno dos nossos amigos e leitores.

Isabel disse...

Ainda são estas maravilhas que me sustêm.