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Afinal o Pai Natal sempre existe



Apesar de andarem preocupados com as avaliações, e a guerra com o Ministério da Educação os professores não se demitem da sua missão e do seu caminho e há dias durante uma aula de Português um professor do primeiro ciclo viu- -se com uma situação em mãos que o deixou a pensar.

Dado que o Natal se encontra à porta lançou aos seus alunos um pequeno desafio alusivo á quadra que se aproxima “Escrever ao Pai Natal” distribuiu pela classe folhas de papel A4 recicladas, fazendo uma pequena introdução sobre os benefícios da reutilização e o dever que todos temos em aproveitar bem os recursos que temos. Após esta breve explicação deu ordem para iniciarem a tarefa.

Pegou num livro e sentou-se na sua mesa, deitando de vez em quando um olhar por cima dos óculos para a sala de aula e de seguida retomava a sua leitura.
Alguns minutos mais tarde despertando da sua aparente letargia ouviu vozes lá no fundo, levantou a cabeça e acabou por se levantar para melhor perceber o que se estava a passar. Espantado pela motivo da causa ser o filho de um colega professor de Linguas que bem conhecia das reuniões de pais e de ficar na conversa com ele horas e horas a discutirem os problemas da “classe ou o código do aluno” nunca o pequeno Sérgio fora causa de qualquer problema, sendo um dos melhores alunos da sua turma.

“Que se passa?” perguntou intrigado.

Todos os olhares convergiram na direcção do rapaz, que permanecia calado. Ao chegar junto dele o professor viu que a folha continuava imaculada, tal como lha tinha entregue, uma boa meia hora antes. Vendo que o pequeno Sérgio estava a pensar com os lápis de cor numa mão e a esferográfica na outra, pronto a iniciar a carta, embora com o olhar distante e pensativo, voltou-se para a turma e disse “Não vêm que ele está a pensar! em vez de fazer montes de gatafunhos que ninguém percebe, como é que o Pai Natal vai ler essas cartas, estou para ver… muito bem primeiro há que pensar e depois então passar à acção.” Voltando-se para o pequeno disse-lhe com voz baixa

“Veja lá não adormeça ainda, é bom que se despache”

Dirigiu-se para o seu lugar e sentou-se retomando a leitura, embora mantendo-se atento ao que o pequeno Sérgio fazia, como não havia qualquer reacção, o velho professor levantou-se novamente e foi ver o que de facto se passava, pelo caminho ia já vendo as folhas escritas e coloridas por imensos desejos apelativos. Chegando perto do miúdo perguntou com meiguice:

- Então não sabes que hás-de pedir?
- Sei sim senhor Professor, mas não vale a pena…
- Como? Não vale a pena… Não estou a entender!
- É que sabe Senhor Professor, não vale a pena… (O professor fez uma careta de espanto)
- Gostaria realmente de perceber porque não vale a pena!
- Senhor Professor como é que eu peço ao Pai Natal para dar um emprego ao meu pai? Ele há dois anos que não é colocado dá umas explicações mas isso o que é? A minha mãe trabalha dia e noite para pagar a casa e mal chega para comermos! Oh senhor Professor não vale a pena escrever já o ano passado escrevi ao Pai Natal e nada…

O silêncio caiu repentinamente na sala, nem um simples rabiscar se ouvia afinal todos acabaram por escutar o que o colega disse, apesar da larga experiência nunca se está preparado para se ouvir certas coisas. Tentando reassumir a sua pose de professor, disse-lhe num sussurro
“Volta a escrever, quem sabe se ele te atende este ano…”
Animado pela voz carinhosa do seu professor o pequenito escreveu duma penada


«Querido Pai Natal

Arranja um trabalho para o meu papá, qualquer coisa o que ele quer é trabalhar e manda um chocolate pequenino que é para o meu mano mais novo."

Assinou e entregou com uma lágrima a querer fugir pelo canto do olho.
Um a um todos foram entregando os trabalhos e saindo para o recreio. No dia seguinte ficou sem palavras quando viu os seus alunos chegarem sorridentes e felizes carregados com sacas e mais sacas com o que puderam arranjar em casa comida brinquedos e montes de chocolates. Afinal o Pai Natal sempre existe, e é uma felicidade quando podemos dar um pouco do que não nos faz falta.

António Gallobar

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