Velhas memórias...
No fundo da memória e da alma, todos nós certamente temos lugares que consideramos especiais e aos quais desejamos retornar um dia; seja a vila natal, sua cidade ou seu país.
Dia após dia, ano após ano, alimentamos o sonho de um dia voltar.
Com o passar do tempo, vamos arranjando desculpas, adiando sucessivamente esse momento de reencontro com o passado; até que chega o dia em que decidimos partir de peito aberto e alma lavada, nessa procura de reencontrar as nossas memórias e raízes. Nesse momento, iniciamos uma busca, real ou irreal, que é também um desafio a nós mesmos. Nessa busca, sentimos que esse reencontro com o passado será talvez fugaz, mas importante. Será um momento de regresso, mesmo que puramente ilusório ou mental, que procuramos incessantemente no fundo da nossa memória ou da alma. Aí, nesse lugar secreto, encontraremos vestígios do que fomos e do que hoje somos, um acumular de um número infinito de pensamentos e sonhos inconfessados.
Ele sabia melhor do que ninguém que tinha mesmo de fazer esse regresso, sozinho e sem distrações. Esse nosso eu andou às voltas durante anos, seguindo um rumo diferente do que um dia havia idealizado para si mesmo; por caminhos diversos que só ele conhecia, num quadro repleto de memórias. Eram as suas memórias.
Algumas coloridas e alegres, outras pontuadas por sentimentos nostálgicos onde as lágrimas invariavelmente surgiam, envoltas em suspiros de alma no vazio da saudade, quando se descobre que, afinal, ali naquele que foi “nosso” lugar, que foi talvez doce, hoje existe apenas solidão e onde ninguém mais nos reconhece. Nesse momento, a dura realidade se sobrepõe às memórias, quando só vemos pedras mortas que não falam mais conosco. Nesse momento, teremos um reencontro com as lágrimas que insistem em aparecer em nossos rostos inconsoláveis, num verdadeiro sentimento de perda.
Num vórtice, tudo de repente acontece; especialmente quando reconhecemos as velhas paredes e estas seriam as únicas capazes de nos reconhecer se falassem.
Com dor, vemos que todas as vozes se calaram definitivamente e nada mais resta que a pura nostalgia de que ali um dia fomos, e que, afinal, ali num dia já distante, fomos verdadeiramente felizes, apesar de sempre termos achado o contrário e circunstâncias diversas terem feito com que um dia tivéssemos de partir e deixar tudo para trás.
Esses momentos e sentimentos inconfessados ficarão para sempre guardados, bem guardados no fundo da nossa memória. Lembranças de sorrisos e lágrimas, que são como suspiros. Onde o pesar e simultaneamente a gratidão encheram em tempos aquele lugar mágico.
Hoje, ao voltar às velhas ruas, você sente pela primeira vez na sua vida que passará a caminhar realmente sozinho e, neste momento, sente que o mundo não passa de uma fugaz e pura ilusão onde todos estamos de passagem e que suas memórias agora misturam realidade e sonho, num amálgama de pensamentos inquietos que quase se dissolvem como uma manhã que começa envolta em neblina que não te deixa enxergar direito. Quiçá um dia desejarás voltar reencarnando numa borboleta ou num pássaro, que suavemente voa sobre as suas velhas memórias. Mas de repente, tudo parece ter mudado.
Antônio Gallobar
Porto, 20 de Maio de 2026
Agradecimento especial à minha amiga Irene; tratasse de uma senhora muito culta, que para mim é uma inspiração.
O texto completo é :
"Caminhar através das memórias…
Provavelmente, todos temos lugares especiais aos quais é agradável retornar, mesmo que esse retorno seja puramente mental. Um passeio tranquilo por diferentes caminhos da memória é colorido por diferentes sentimentos, com um sorriso caloroso e lágrimas, com um suspiro profundo da alma, com pesar e, ao mesmo tempo, com gratidão por tudo que preencheu a cidade pessoal das lembranças. Nas ruas dessa cidade, você ainda sente que não está realmente caminhando sozinho e que esses passeios não são um mundo ilusório que se dissolve como névoa; são os mais reais e sinceros, trazendo os contornos do passado não ao alcance de um braço, mas abraçando o milagre da sua presença perto e dentro da alma, o passado distante se torna tão próximo. Irene
Este é o texto original que li dessa senhora, já foi há algum tempo atrás, no site de fotos Youpic. Ela escreveu esse pequeno texto, a proposito das nossas memórias, saudade e lugares que nos marcam. Fiquei um tempo pensando nele, e que por ventura seria um bom ponto de partida para um futuro romance a ser escrito depois de terminar o "Colecionador de Segredos", isso de forma geral nos diz que o que lemos (livros, textos poesias etc) de outros autores, acaba nos inspirando também, ter novos pontos de vista e inevitavelmente acaba nos ajudando a defenir um rumo no futuro.
Este também pode ser um caminho para ti, um ponto de partida para criares algo que te dê prazer.
OBRIGADO PELA VISITA !
Não esqueça de deixar o seu comentário, é muito importante a apreciação dos leitores que por aqui passam!
© António Gallobar/Irene – Todos os direitos reservados