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Hoje vou abrir o baile…

Olho pelo canto do olho
sinto-me um autentico rei,
vendo-te a meu lado…
levanto a cabeça garboso
embevecido, quase enamorado
vou finalmente ter a honra de abrir o baile
sinto-me lisonjeado como se bailasse em Viena
ao som da mais bela valsa
da mais refinada orquestra,
olho para ti e vejo que tudo faz sentido
e tudo valeu a pena

Dá-me a tua mão e vem comigo bailar
esta noite serás a rainha
o teu brilho a sala vai calar
todos querem, o que não podem ter
Pois tu és minha…
sinto que escolhi a mais bela
cheia de esplendor
para ser o meu amor,
a minha eleita o meu viver

Hoje vou ser o mestre-sala
o meu melhor fato de gala vestir
vou voar como num sonho
rodopiando em pontas
e vou finalmente ser feliz
vendo o teu belo sorriso
e o que estarás a sentir

António Gallobar





O pescador de sonhos, vai deitar a chave ao mar





Como um pescador
que espera o que não vem
descalço na areia fria
junto à agua do teu mar
sinto o teu cheiro o teu aroma
sentindo o mundo em cada olhar

O piar das gaivotas me despertam
no voo das ondas que vêm até mim
sento-me na rocha,
descanso o corpo e espero.

Pára o tempo, pára tudo…
o sol esconde-se atrás da nuvem
avança a penumbra dos medos…
e tu não vens?

Que me dizes?
Não ouves o vento os meus gritos e ais!
Apenas silêncios que matam
que magoam, nada mais

Não digas mais nada
a brisa acalmará a minha alma
e atenuará a espera,
podes demorar o que quiseres
eu espero… sempre te hei-de amar

Como um pescador de sonhos
ou de ilusões esperarei
e vou guardar numa caixa
bem fechada essas emoções
e no final deitar a chave ao mar

António Gallobar
O amor de Pedro por Inês


Foi com alguma emoção que o gosto pela fotografia me levou sem querer a redescobrir esta bela história de amor, quando fui tirar umas fotografias ao belo Mosteiro de Leça do Balio nos arredores da cidade do Porto, e me deparei com uma escultura recente dedicada ao imortal amor a estes dois seres que viveram alguns anos das suas vidas, na sombra e na clandestinidade.

O pai de Pedro era o rei D. Afonso IV, e por isso jamais poderia aceitar que um príncipe de Portugal casasse com a Galega Inês de Castro, pondo assim em risco a independência. Contam as lendas e registos que D. Pedro se apaixonou perdidamente por uma das aias da sua mulher, mas como os altos interesses da nação se sobreponham a isso, vivia no palácio uma vida dupla mantendo o curto casamento com D. Constança que acabou por falecer no momento em que deu à luz o primeiro filho que haveria de ser depois de D. Pedro o herdeiro do trono de Portugal (D. Fernando). Após a morte da legitima esposa o príncipe pensou poder oficializar a sua relação com D. Inês já que há muito se havia tornado na sua grande paixão, mas sofreu feroz oposição por parte de Rei, acabando por ordem sua por ser afastada para bem longe da corte.

Contra tudo e contra todos o príncipe correu para os braços da sua amada vivendo o sabor da paixão, havendo inúmeros relatos e em segredo acabou mesmo por se casar com a sua amada no dito mosteiro de Leça do Balio, sendo designado na antiguidade por Bailio do Lessa, numa clara referencia ao rio que corre nas suas costas.

Desse amor nasceram três filhos, e não foi de estranhar que as intrigas chegassem ao palácio real cada vez mais em maior numero e cada vem mais fortes às quais o Rei acabou por ceder decretando a morte de Inês de Castro com vista a resolver de vez o problema, assim num triste dia aproveitando a ausência de D. Pedro assassinaram-lhe o seu grande amor e por isso ficou naturalmente inconsolável, jamais perdoando ao seu pai tal atrocidade e violência que sobre eles exercera.

Quando subiu ao trono, fez proclamar D. Inês de Castro como Rainha de Portugal, por outro lado mandou perseguir e executar dois dos três carrascos, contando igualmente as lendas que D. Pedro com as próprias mãos lhes arrancou o coração pelas costas tentando desta forma vingar a enorme angustia e raiva que por eles nutria.

Chegam ecos até aos dias de hoje desse eterno amor 650 anos depois, continuam lado a lado sepultados em túmulos maravilhosamente trabalhados no belíssimo Mosteiro de Alcobaça, onde continuam a receber o povo que os venera, sendo este amor exaltado ao longo dos séculos por todos os poetas de onde se destaca naturalmente Luís de Camões.

António Gallobar
Leça do Balio, 17 de Fevereiro de 2009.
O pedido de namoro...





Ficaram a olharem-se sem nada dizerem, simplesmente olhando olhos
nos olhos. Para Raul era um momento único, ficar a sós, com a rapariga dos seus sonhos. Raul disse-lhe baixinho, como quem se confessa, de algo que o atormenta:

- Sabes..., tenho pensado muito em ti!

Ela pareceu ficar um pouco envergonhada e apenas lhe disse “Eu também...”. Ficaram novamente calados por breves instantes, pareciam querer entender-se. Raul pegou nas mãos delicadas de Eugénia, sentiu-as estremecerem ligeiramente, com suavidade inclinou a cabeça e beijou-as num impulso impensado. Ela olhou para ele e disse-lhe, bem mais decidida do que ele:

- Queres namorar comigo?

- Se quero, é mesmo o que mais desejo!... Respondeu-lhe Raul sem hesitar.

- Gostei do beijo, mas podias ter escolhido um sítio melhor...

- Onde?

- Assim!

Abrindo os braços, Maria Eugénia, avançou para ele e deu-lhe um beijo apaixonado, na boca.

Protegidos pelos arbustos do quintal de Joaquim, ficaram mais uns instantes abraçados. O coração de ambos bateu loucamente, ouvia-se a quilómetros de distância, tal a intensidade reciproca da paixão, própria de quem ama, não importa ter dezasseis, ou sessenta e um anos, é igual. Quando esse dia chega nada no mundo mais interessa, se há pai ou mãe que não queira, se pode ou não se pode... O importante é estar próximo de quem se ama, só o estar próximo já é bom, aquele beijo!... Oh que fantástico beijo pensava Raul, tudo o que fez, valeu a pena, Nem sabia como encontrou coragem, para a beijar, era incrível namorar com aquela rapariga tão fantástica! Este era um daqueles momentos inesquecível para qualquer ser humano.

Ao longo da vida, recordamos estes momentos que nos marcaram para sempre. Com o tempo, por vezes esquecemos emoções como estas, tão lindas, confundimos o amor com outras coisas, habituamo-nos uns aos outros e deixamos o amor arrefecer. O amor precisa de uma porta aberta, para que por ela entre uma brisa, mesmo que ligeira para que o braseiro do amor não se extinga e permaneça vivo. Quando se olha para trás, e se vê dentro da nossa cabeça, imagens gravadas a ouro, simples e puras, como esta, que nos fazem despertar para lado bom da vida e fazem de nós seres humanos únicos, capazes de saber preservar e prolongar estes momentos, que por vezes não passam de simples troca de olhares, ou simplesmente um beijo apaixonado, que por ser o primeiro é único, capaz de conseguir mudar toda uma vida.



Texto retirado do meu livro
Encontro com a vida